quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Novela de uma gordinha... - 5° parte


[A tormenta...]
Essa era a minha 15° semana desde o dia que a aposta começou... Eu havia estacionado depois de emagrecer facilmente 12 kgs... Comecei a ficar frustada mas Mari dissera que isso era natural. Nesse dia em especial eu estava na hora que havia se tornado um dos meus maiores suplícios: Compras de supermercado em família. Era mais fácil dizer não para o pequeno TJ que toda hora colocava doces e guloseimas no carrinho quando íamos sozinhos, mas o meu maior problema agora era o MEU MARIDO.
- ... e nós não estamos de dieta!!! Por que não vamos levar? - A minha irritação só subia. Era verdade que conversamos mais cedo sobre a lista de compras... a resposta foi um desinteressado "o que vc escolher está bom.." assim como as perguntas do que eu iria fazer para as refeições... Mari tinha me dito que uma das importantes leis da vida (não somente da dieta) era "se mantenha na lista". Isso era bom tanto para o corpo como para o bolso...
- Porque não está na lista!! E ainda mais! Se levarmos é só isso que ele vai comer! Ele já não anda comendo muito...
- Claro! Agora você só prepara mato! Quem quer viver assim? - Cravei as mãos no carrinho. Minha vontade era voar no pescoço dele. TJ puxou a minha manga. Eu virei furiosa para o pequeno.
- O que é dessa vez?! - Ele se encolheu e mostrou o punho do carrinho. Minhas mãos sangravam... Eu entreguei a lista suja de sangue para Carlos.
- Termine as compras! - Virei e saí contendo as lágrimas e enrolando as minhas mãos na minha encharpe.
Depois de alguns segundo havia saido do supermercado e andava pelo centro comercial. A minha cabeça estava a mil, e eu não conseguia reter um pensamento por mais de 10 segundos... a explosão inicial havia passado, mas a vontade de chorar e a frustração, não. Ao passar na frente de uma confeitaria, me detive fronte a um das vitrines giratórias.
"Oh, Céus! Eu PRECISO de um desses!!" Foi o único pensamento que se deteve na minha mente. Eu olhei chocada para o meu reflexo na vitrine. Eu não acreditava no que eu havia pensado... ou que aquele fora o único pensamento que ficou na minha cabeça! Desde quando eu PRECISO de um pedaço de bolo??? Olhei em volta já entrando quase em desespero peguei o celular e disquei um numero quase cegamente... Uma voz masculina atendeu do outro lado.
- Alô?
- Por favor, Mari está? - o som do telefone colocado na mesinha, passos do outro lado... segundos que pareceram eras enquanto a minha boca salivava por uma das tortas da confeitaria...
- Alô? - Eu me agarrei ao fone quase em prantos.
- Mari? Vc tem alguns minutinhos? Preciso de um ombro amigo... - A voz do outro lado pareceu apreensiva.
- Nara? O que houve? Você está bem?
- Não estou... Pode me encontrar?
- Claro... Onde vc está?
...
Mari não demorou muito. Eu preferi andar para não ceder à tentação da confeitaria.
Mari chegou acompanhada. Naquele momento eu não sabia onde onde enfiar a cara... Eu já estava com a maquiagem borrada e os olhos mareados... havia me controlado bastante para não chorar, mas lágrimas teimavam em correr pelo meu rosto... e que pra mim não tinha razão aparente... Mari deu um beijo no homem que a acompanhava e eles se separaram. Ao me ver, ela abriu os braços e aí sim pude dar vazão ao meu choro... As lágrimas fluiam e eu não conseguia entender bem o porquê. Sentamos na mesma confeitaria que eu havia passado minutos atrás e pedimos um chá.
- Eu não sei porque eu ando tão impaciente e triste, Mari... eu já consegui emagrecer mais do que em toda minha vida adulta, mas ainda me sinto o mesmo lixo de 3 meses atrás... - Mari olhou-me condescendente.
- Fale-me... o que houve? - eu discorri de toda a discussão, desde a montagem da lista de manhã, a discussão no corredor das geléias no supermercado e o pensamento sobre o bolo ou torta, em frente daquela mesma confeitaria. Mari ouviu tudo calmamente...
- ... e eu não sei agora porque eu estou tão triste! - Mari bebericou o chá e pousou a xícara na mesa sem me olhar e soltou em um suspiro:
- ... então o paliativo finalmente teve seu fim... Eu me questionava qdo chegaríamos nesse ponto... - Eu olhei para Mari um pouco desconcertada.
- Paliativo? - Mari me fitou nos olhos.
- Sim, linda. Até agora o que fizemos até hoje foi um paliativo... Distrações para retirarmos parte dessa "casca" causados por excessos que hoje não te incomodam mais. Mas ainda nem chegamos na "outra Nara", aquela que está forçando pra aparecer e agora, resistindo em ficar. A mesma que faz pensamentos como esse que vc acabou de ter, do "precisar do bolo"... por que? Por ter brigado com Carlos por não querer levar um pacote de biscoitos? Veja bem... esses são pontos que te ferem, machucam, incomodam que a "outra Nara" protegeu para não te atinjam mais. Só que esses mesmos pontos que te atingem, a afetam também, entende? A diferença é que "ela" cobra um preço pra não deixar que isso chegue em você. Para algumas pessoas é uma dose de uisque em pleno meio-dia de uma quarta-feira, pra outras é aquela hora da pausa pro cigarro no meio de uma reunião... Para pessoas como eu e você é o chocolate, sorvete ou pedaço de pizza fora dos horários das refeições. É o preço que nós pagamos para... não doer mais do que já doi... Infelizmente... - e deu mais um gole no chá.
O silencio se estendeu até ser quebrado novamente por Mari - Olhe agora para aquela vitrine rotatória. Algum daqueles bolos te atraem tanto quanto a alguns minutos atrás? - Eu desviei o olhar. Claro que me atraiam. É claro que eu queria um pedaço gigantesco daquela torta marron e suculenta que girava no segundo prato superior... A frustração parecia explodir no meu peito e a irritação fazia latejar a minha cabeça. Todo meu ser pedia uma... compensação... Algo pra desviar o foco enquanto o furor de sentimentos se acalmava dentro de mim. Eu só meneei a cabeça afirmativamente.
- Então a "outra Nara" não vai dar vazão a esses sentimentos enquanto não receber um pedaço de bolo? - Essa frase me fez rir, me lembrando do TJ e como Carlos o acalmava rapidamente com uma guloseima qualquer quando ele dava birra durante os passeios de família.
- Somos inexperientes nesse ponto, Nara. Fazemos o que nossos idolos nos ensinaram a fazer! Com o tempo o que eles faziam passamos fazer. Pra mim, era a modelo magérrima da novela das 7 que qdo estava triste se fartava de chocolate ou aquela adolescente do filme romântico que se afundava num pote de sorvete pra afogar as lágrimas e a tristeza que estava no peito. Se funcionam? Não sei. Mas considere que isso é a sua eterna rota de fuga. Assim a "outra Nara" crescerá cada vez mais e mais... Até tomar o seu lugar... A sua "proteção" atualmente tem... 58 kgs... é uma outra pessoa! Vai deixar com que ela tome o seu lugar? Vai deixar que ela viva a sua vida? - Eu enxuguei outra lágrima teimosa que teimava a rolar no meu rosto. Ela pôs a mão sobre a minha - Está com o seu caderno aí? - eu menei a cabeça afirmativamente e o tirei da bolsa. Ela abriu na parte azul com as tarefas e as perguntas que eu tinha que responder a cada semana. Eu tinha conseguido seguir disciplinadamente a maioria das tarefas que Mari me passava, apesar que na maioria das vezes não aparentavam ter sentido algum, mas que fazia sem questionar muito. Ela abriu na primeira folha que ainda estava com apenas uma pergunta no topo "Por que eu quero emagrecer?"
- Nara.. Vamos mudar essa pergunta: Por que você está gorda?
- Porque eu como errado e demais! - Ela sorriu.
- Mesmo? E por que você come errado e demais? Você sabe o que pode e o que não pode, o que faz bem o que te faz mal, até melhor que eu? Por que insiste em empurrar coisas como aquilo goela a baixo – Apontando pras tortas - como se fossem a cura sendo que na verdade são o veneno? - Aquilo me deixou terrivelmente chocada. Mari possuia o dom das palavras comigo e todas as verdades que ela me dissera até então não me pareceram tão doloridas. Mas ela continuou.
- Nara... Você quer mudar pelos motivos errados. Se não encontrar um motivo forte para lutar, vai enfrentar a mais terrível das batalhas; e pior, vai ser miserávelmente derrotada. - se levantou pegando o tiquet sobre a mesa.
- Emagrecer não é simplesmente alimentação e exercícios. Nem algo do tipo “tomei vergonha na cara e decidi emagrecer”. Vai além da sua vontade ou de qualquer coisa que você já tenha passado. Não é uma coisa que possa ser reduzida a uma simples equação, gastar mais que comer. Emagrecer significa mudar. Mudar radicalmente. Rever conceitos, escolhas, atitudes, posturas... principalmente forma de pensar. E mais do que tudo: na maioria das vezes, é doloroso mudar... - Eu levantei os olhos em direção a ela
- Mas... mas eu estou tão perto da meta da aposta... estou tão... - Mari me interrompeu.
- Espere... você ainda está pensando naquela aposta estúpida?? - eu mirei aqueles grandes olhos castanhos.
- Não é pra isso que continuamos a cada semana? - Mari riu.
- Oh não, Linda! Se está fazendo isso por causa da "aposta" o que estamos fazendo será trabalho perdido! Está fazendo a coisa certa mas pelos motivos errados. - eu me levantei irritada.
- E qual é a diferença se funciona!? - Mari baixou a cabeça.
- A diferença? É a diferença entre construir um castelo de areia e uma casa de tijolos! Você pode viver em ambos mas qual deles vai resistir a primeira tempestade? Qual delas vai ficar de pé, firme e sólida diante das interpéries da vida? Nara... você chegou a um ponto crucial e eu não posso mais passar a mão na sua cabeça. Essa hora você vai ter que se decidir. Porque, linda... agora essa tormenta só está começando... E te garanto... passar por ela não vai ser fácil. Mas garanto que será muito recompensador... - Ela se foi e me deixou sozinha na mesa observando a encharpe ensanguentada sobre a mesa...

[ Fim da quinta parte]


Gente... perdão pelo atraso mas tá aí o quinto capítulo da novela (que está já no final...). Tou em SP e sabem como é, estar fora do domicílio...
Bom... Queria seus pitacos sobre a novela!!!! O que vocês acham que vai acontecer? A Nara vai conseguir emagrecer? Uma bela amizade está ameaçada??? As amigas de Nara tinham razão e ela nunca vai mudar????
Tã tã tã tãããããããã!!!!!
(aguardem cenas do próximo capítulo...)

Um comentário:

Darlana Godoi disse...

Viva!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!